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Fernando Pessoa

33. Coração

Pessoa evoca a morte do seu maior amigo.
[ilustração: Almada Negreiros (1893-1970). Retrato de Mário de Sá-Carneiro.
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«Nós éramos como um diálogo numa alma.»
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SÁ CARNEIRO

                Nesse número do Orpheu que há-de ser feito

                Com rosas e estrelas em um mundo novo.

Nunca supus que isto que chamam morte

Tivesse qualquer espécie de sentido...

Cada um de nós, aqui aparecido,

Onde manda a lei e a falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem

Entre um comboio e outro, entroncamento

Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;

Mas, seja como for, segue a viagem.

Passei, embora num comboio expresso

Seguisses, e adiante do em que vou;

No términus de tudo, ao fim lá estou

Nessa ida que afinal é um regresso.

Porque na enorme gare onde Deus manda

Grandes acolhimentos se darão

Para cada prolixo coração

Que com seu próprio ser vive em demanda.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.

Há almas pares, as que conheceram

Onde os seres são almas.

Como éramos só um, falando! Nós

Éramos como um diálogo numa alma.

Não sei se dormes [...] calma,

Sei que, falho de ti, estou um a sós.

É como se esperasse eternamente

A tua vida certa e conhecida

Aí em baixo, no café Arcada —

Quase no extremo deste [...]

Aí onde escreveste aqueles versos

Do trapézio, doriu-nos [...]

Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».

Ah, meu maior amigo, nunca mais

Na paisagem sepulta desta vida

Encontrarei uma alma tão querida

Às coisas que em meu ser são as reais.

[...]

Não mais, não mais, e desde que saíste

Desta prisão fechada que é o mundo,

Meu coração é inerte e infecundo

E o que sou é um sonho que está triste.

Porque há em nós, por mais que consigamos

Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,

Um desejo de termos companhia —

O amigo como esse que a falar amamos.

1934

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).

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